Meu Carnaval 40+
- Pedim Guimarães
- 14 de fev.
- 3 min de leitura

Normalmente, as pessoas tomam como ponto de inflexão o final do ano, que corresponde ao fluxo, afinal está perto do término do período que a Terra leva para completar uma órbita ao redor do Sol. O final do ano me quebra; não consigo realizar retrospectivas doces, mas isso é tema para outro texto. Voltando a este monólogo, a época que me traz uma melancolia gostosa é o carnaval. Enxergo a mim mesmo ao longo dos anos: minhas preocupações, sonhos, esperanças, fixações do momento, se foi confortável, como eu me sentia na época em relação a mim, aos próximos e ao mundo. De vez em quando, isso coincide com o aniversário deste que vos subscreve.
Antigamente, durante o período momino, era dificílimo os empreendimentos abrirem; portanto, nos dias antecedentes, as famílias lotavam os mercados como se se preparassem para uma calamidade pública. Uns e outros aproveitavam para alugar filmes e/ou jogos eletrônicos para se entreterem. Muitos aproveitavam (e ainda aproveitam) para passar em família, seja visitando parentes em cidades do interior do estado ou alugando um imóvel para reunir toda a família toda naquela bagunça em que uma galera disputa um banheiro. Cada escolha tem seus méritos; gosto é relativo.
Como de praxe há alguns anos, a opção foi ficar em casa; portanto, tentar descansar, diminuir o ritmo do cotidiano acelerado, frequentar locais bons que em períodos comuns estão lotados e curtir meu passatempo: ir ao supermercado! Passei a gostar de fazer compras há pouco tempo, pois antes odiava. Agora acho divertido; é um espaço diversificado, afinal, todo mundo precisa ir. E o que escrever sobre algo tão banal? Bom, mas a crônica é bacana por isso: abordar o banal de uma forma temperada, quase lírica.
Entro e avisto um homem em trajes surrados que levava uma latinha à boca e balbuciava alguma frase solta para estabelecer algum diálogo com outro cliente. Segui para cumprir meus objetivos no local; durante meu deslocamento, um cara me aborda:
- Cara, eu me lembro de ti de algum lugar...
- Bicho, tua cara não me é estranha... – respondi com cautela, pois passamos por tempos de desconfiança mútua. Ele perguntou onde eu morava antes; respondi e tentei ajudar nossas memórias falando de onde estudamos, colégios diferentes. Não havendo mais assuntos, encerrei a conversa de forma desconfortável.
— É, a gente se lembra depois — replicou o homem não identificado.
Eu tenho memória fotográfica razoável e consigo identificar conhecidos a uma boa distância. De longe, já penso se vou me evadir do local, fingir loucura, esperar ser visto ou cumprimentar. Confesso que a última é a que menos faço. Por quê? Porque já cometi diversas gafes ao ver a pessoa ali não lembrar nem de conhecer você. Sim, o danadão aqui não reconheceu o homem não identificado, mas eu sou humano, né?
Peguei minhas compras, rumei ao caixa; o homem não identificado estava em uma das filas. Calculei uma fila para não estar muito perto para ser visto de cara, mas que permitisse o reconhecimento. Ele me viu:
- Lembrei, era no shopping...
- Sim, esse mesmo; a gente jogava lá.
- E tu ia com teu irmão.
- Ele jogava mais do que eu. – conversamos um pouco, cujo teor se resume a um apanhado do local e da época.
- Poxa, que legal te rever!
- Valeu, abraço. – despedida verbal não cumprida, substituída pelo famigerado troféu joinha: o dedo polegar de uma das mãos voltados para cima.
Durante alguns instantes, acessei minhas memórias ao tempo que fora recordado no breve diálogo. Senti-me honrado pelo meu eu do passado, pois, se o cara veio falar comigo sem lembrar direito de onde era, mas conseguiu vencer a vergonha de não ser reconhecido e admitir que lembra parcialmente, significa que devo ter causado um impacto positivo. Vez por outra, acerto, né?
Meu cálculo de fila me levou ao senhor mal arrumado e a bebericar uma cerveja de qualidade questionável; suas vestes nos levaram a crer que era um senhor após uma jornada exaustiva de labuta braçal:
- Moço, pode ir. – Ele me cedeu a vez.
- Senhor, pode ir, tô sem pressa.
- Tô aqui tomando uma, só tô perto do friozinho dessa geladeira de refrigerante.
- Beleza, se garanta aí – sorri educadamente, sem carisma.
— Ei, meu amigo, quanto está a bandeja de ovo? – perguntou ao cliente que me sucedeu na fila, e este prontamente respondeu, iniciando um diálogo morno entre eles.
Paguei as compras. Segui. Antes de sair do supermercado, vi o homem da latinha, sorridente do lado da geladeira, sem fazer mal a outros, apenas na sua festividade melancólica, bela e digna, sem música, apenas a melodia das pessoas que passam e vão.
Aproveita e confere meus outros dois textos de carnaval:




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